100 Anos se passaram
Quarta Junho 25th 2008, 16:25
Arquivado em: TRABALHO, JAPÃO EXPRESS

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Foi uma viagem. Há alguns meses, ponderei sobre ingressar numa empreitada como coordenador de vídeos. A proposta parecia boa, a consideração e o lugar nem tanto, mas quase entrei. Do outro lado, uma pretensa proposta de participar das comemorações oficiais do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, a acontecer no Anhembi (Palácio das Convenções +Sambódromo). Foi um curto espaço de indecisão, mas agora tenho a plena certeza de que tudo foi pro melhor lado possível.

O evento teve duas partes distintas, com alguns pontos comuns. Iniciou-se na Semana Cultural, dentro do “Pudim” ou Palácio das Convenções e teve sua conclusão épica na pista do Sambódromo, com a presença do príncipe Naruhito, vindo direto do Japão. Na Semana Cultural, a coisa era mais delicada, com artistas independentes e uma estrutura minuciosa com o projeto cenográfico de Jum Nakao. A equipe foi legal até certo ponto, depois se perdeu em algum lugar. Migrando para o Sambódromo, a história foi beeeem diferente. Não era uma equipe, era uma família. Todos os dias nos reuníamos no quarto de alguém, pra tomar cerveja, ouvir música, rir bem alto e tomar chá. No evento, era uma colaboração intensa, onde todos ajudavam a todos, salvo raríssimas excessões que nem valem ser comentadas. Quando algo deu errado e alguém chorou, os outros estavam lá pra apoiar e levantar a moral. Quando tudo terminou, estavam todos lá novamente, abraçados, chorando, pulando e celebrando.

Não houveram trabalhos ou equipes melhores do que essa. Pro encerramento com chave de ouro, estávamos lá, numa sala obscura dentro do Sambódromo, com DJ, pista de dança, churrasco, vodka, dançando feito loucos como quem se liberta, expurgando os demônios interiores. E todos felizes da vida. Foi uma viagem.

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Not Enough Time
Quinta Junho 19th 2008, 23:38
Arquivado em: LIMBO, JAPÃO EXPRESS

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Ultimamente não tem sobrado tempo pra nada. Sem tempo pra me barbear, pra sair com os amigos, pra ensaiar, pra visitar lugares ou sequer, pra andar na rua. Vida de hotel, indo e vindo sempre nos mesmo lugares, com as mesmas pessoas, num espaço que abriga gente envolvida com 3 eventos distintos: uma feira têxtil, uma feira de turismo e uma feira japonesa. Os cafés-da-manhã são divertidos e os encontros de elevador são multi-étnicos.

Ontem conheci um grupo de Taiko (Tambores Japoneses) vindos diretamente de Tokyo para a apresentação que ocorreu hoje, há poucas horas atrás. Não pude ver, mas encontrei um dos integrantes do grupo pelos corredores. O cara me convidou pra visitá-lo em seu país, em sua casa.

Not enough time, for all that I want for you. Not enough time for every kiss. And every touch, and all the nights, I wanna be inside you.



Centenário da Imigração Japonesa no Brasil
Quinta Junho 12th 2008, 13:17
Arquivado em: JAPÃO EXPRESS

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Começou! A partir do dia 13.06 iniciam-se as comemorações oficiais do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, estendendo-se até o dia 22.06. A festa começa no Palácio das Convenções do Anhembi, com apresentações de grupos de dança, orquestras, teatro, exposições de origamis, tanabatas, mangás, animés, cosplay, etc. O encerramento ocorre no auditório Elis Regina com apresentação solo de Fernanda Takai interpretando Nara Leão, e também no Sambódromo, com a presença do príncipe Naruhito que vêm do Japão para as comemorações.

O evento é organizado em parceria entre a Fundaçao Japonesa no Brasil com a ROCK Comunicação, onde trabalho atualmente. Todo o projeto cenográfico foi elaborado por Jum Nakao, estilista que realizou um trabalho fantástico na decoração do Anhembi.

À todos que simpatizam com a cultura japonesa, vale a dica. As atrações são fabulosas, com artistas independentes e pequenos grupos que detém um charme inigualável. O simples fato de acompanhar os ensaios quase me arrancou lágrimas. No evento em si, isso vai ser inevitável. Toda a história de um povo que desbravou o desconhecido em busca de uma nova vida está prestes a ser celebrada em grande estilo, afinal, 100 anos não é para qualquer um.

A quem for, me chamem no telefone pois estarei lá todos os dias, o dia todo. E sentamos para um bate-papo com sakê.

BANZAI!



Japão Express - Parte 3: “A lenda do lixo”
Terça Outubro 09th 2007, 19:19
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Um aspecto extremamente positivo do Japão são as ruas planas, que predominam em todos os centros urbanos, ocasionando numa febre eterna de bicicletas como meio de locomoção eficaz. Até então, eu andava de trem ou sobre meu próprio par de tênis. Enfim, numa dessas andanças dei de cara com uma tradicionalíssima Mountain Bike, nem me recordo da marca, jogada num canteiro qualquer, num pedaço bem abandonado da cidade. O problema? Um pneu furado. Foi o suficiente pro dono desgostar da coitada. Sorte a minha, troquei o pneu e saí mudando de marchas sem a mínima necessidade. E o Japão ficou menor, meu bairro ficou melhor e tudo ficou tres bien.

 

A partir desse momento, comecei a reparar que, em diversos lugares específicos, havia um acúmulo de “coisas” que pareciam abandonadas, assim como a bicicleta. Eram televisões, rádios, video-cassetes, aparelhos de ar-condicionado, entre outras bugigangas menores. E as coisas simplesmente ficavam lá. Confesso que na primeira vez que pensei em pegar algo, fiquei pelo menos a manhã inteira observando o movimento das coisas. Li uma revista, fumei um cigarro, tomei um café e, depois de tudo isso, quando tive a plena certeza de que nada era de ninguém, saí à caça. O resultado dessa primeira empreitada foi eu voltando pra casa com um video-cassete dentro do cesto da bicicleta. Voltei com mais gente e um carro. Limpamos o lugar. Na maioria dos casos, era plugar o aparelho na tomada e voilá!. Somente em pouquíssimos casos um reparo se fazia necessário.

 

Depois de um tempo reparei que algo parecido acontecia com os carros. A questão é que o carro perde 80% do seu valor após um período de 4 ou 5 anos de utilização. Na maioria dos casos, paga-se a um ferro velho para que ele “hospede” seu carro por prazo indefinido. Para os mais rebeldes, bastava largar o carro na rua, com a chave no contato e pronto. Cheguei a saber de casos de brasileiros que pegavam carros abandonados para sentirem o prazer (?) de bater com tudo num muro qualquer, sem a menor preocupação com gastos, só pra sentir como era. O que pensar de um país desprovido de mercado de carros usados? Bizarro, no mínimo. Ou talvez nem tanto, se você levar em consideração que, no inverno, os japoneses deixam o carro ligado no estacionamento do mercado e vão fazer compras. Com a chave no contato (óbvio) e com o carro destravado. Isso no Brasil. Alguém se habilita?

 



Japão Express - Parte 2: “Perdidos no Oriente”
Quarta Julho 11th 2007, 15:01
Arquivado em: JAPÃO EXPRESS

Com duas semanas de Japão, decidimos nos aventurar um pouco, bandolando de trem pelas redondezas. Na verdade queríamos chegar no centro de Nagoya, afinal, estávamos cansados da paisagem típica de Japão feudal, muito presente nas cidades de interior até os dias de hoje. Pegamos o trem certo, até aí tudo muito fácil. Chegamos em Nagoya sem baldeações ou qualquer outro tipo de empecilho.

Já em Nagoya confirmamos uma suspeita: quase todos falam inglês, o que torna o aprendizado do idioma japonês um pouco mais difícil. O comodismo falando mais alto, pra variar. Tudo bem, o sotaque deles é horrendo e as conversas são absurdamente pausadas. Quase como conversar com um débil mental, sem maldade. E confesso que, nesta fase, eu ainda tinha uma série de ressalvas em relação à cultura japonesa, principalmente ao idioma. Não sei porque, mas todas as vezes que eu ia conversar com algum japonês(a), eu tinha que me segurar pra não rir. E isso durou uns bons 6 meses. Depois a coisa se torna normal e era mais estranho ouvir o português do que inglês ou japonês.

O passeio foi ótimo, fazendo jus à imagem que eu tinha do “Japão Tecnológico”. Outdoors imensos, neons, pessoas bizarras, gente-fashion-no-melhor-estilo-maluco-japonês-de-ser. Até que decidimos voltar pra casa. Pegamos o trem na mesma estação, tudo normal. Inclusive, nas cidades mais estruturadas, é comum vermos letreiros escritos em inglês, para a alegria dos turistas. O problema é que, conforme você se distancia do centro, mais raro isso vai se tornando. Como estávamos conversando dentro do trem, não acompanhamos o trajeto minuciosamente. De repente comecei a reparar que a paisagem estava surreal, bem diferente do que eu tinha visto na ida. Planícies imensas, arrozais, lagos, montanhas e vales. Foi aí que me dei conta: erramos o caminho! Perguntei pro funcionário que circulava dentro do trem se ele conhecia Hekinan, a cidade onde morávamos. Quando ele, que falava inglês, disse desconhecer tal lugar, fiquei realmente preocupado. Descemos na estação seguinte e saímos perguntando pra deus e o mundo se alguém sabia a direção que deveríamos seguir. Nada. Nesse momento lembrei de um tio meu, que esteve no Japão antes de nós. Ele me contou uma história de um dia que ele se meteu a besta e se perdeu de trem. Teve que dormir na rua. E isso me deixava mais e mais preocupado.

Eis que o inesperado aconteceu. Uma senhora, sem brincadeira, de uns 70 anos, ouvia nossas investidas desesperadas e aproximou-se delicadamente. Pra começar, quando vi que ela falava inglês, já fiquei surpreso. Daí ela nos perguntou nosso destino, checou os mapas da estação e apontou nossa casa. Aleluia! Ela já tinha nos salvado a pele naquele dia, mas pra ela não parecia ser o suficiente. O que ela fez? Levou-nos até outra plataforma, a nossa, aguardou pelo trem conosco e embarcou junto. Eu a questionei, afinal, quando a encontramos, ela estava prestes a embarcar em outro trem, em outra plataforma. Ela só me dizia: “Don´t worry, don´t worry”. Quando entendi toda a situação, fiquei pasmo.

A senhora de 70 anos pegou o nosso trem, levou-nos até nossa cidade, e aí sim, voltou todo o caminho de aproximadamente uma hora pra pegar o seu trem. E eu fiquei tão sem jeito que nem lembro se agradeci apropriadamente.

Brigadão tia!



NOMURA PROUD
Segunda Maio 21st 2007, 02:16
Arquivado em: JAPÃO EXPRESS

Mais um boletim direto do Rio de Janeiro. Na verdade, essa é a última noite por aqui, o que é muito triste. Nestes últimos dias consegui encontrar um de meus aspectos pessoais há muito perdido por aí. Esse “choque cultural” me fez lembrar dos anos no Japão, me fez lembrar de como eu deveria e talvez até costumava ser. Me fez perceber que não existe o mínimo de patriotismo dentro de mim. Me fez perceber que apresentar o lado bom daqui não é uma tarefa fácil, principalmente se você tentar fazê-lo com pessoas oriundas de países de primeiro mundo. Que artista brasileiro, ao entrar num set de filmagem, inclinaria-se diante de todos dizendo: “Oi a todos, vou me esforçar o máximo possível, por favor, tenham paciência comigo”? Considerando que a atriz em questão conhecia 10% das pessoas presentes, isso é inimaginável para nossa cultura. Os americanos são cliché às vezes, mas você percebe a diferença. Enfim, o Brasil terminou a corrida em terceiro lugar.
Juntos, nós almoçamos, bebemos, demos risadas, passeamos, trabalhamos e cá estamos.
Leni Andrade acabou de tocar para um público de 20 pessoas, num espaço que respira bossa nova. Ironicamente, ela olhou para mim, o único brasileiro da mesa, e disse: “Você está entendendo o que eu estou dizendo? De onde vocês são?” Japan, Estados Unidos e “Burajiru”. Ela riu, cantou e encantou. Assim também foram as reuniões, trilíngues e divertidas.
Hoje, todos os brasileiros da equipe foram embora. Três dos japoneses também. Dos que ficaram, foi a primeira vez que um deles fez aniversário no Brasil. Regado à muita caipirinha. Hoje a atriz japonesa chorou antes de ir embora, dizendo que foram momentos inesquecíveis. Um deles me mostrou a filha hoje cedo, via webcam e me chamou pra conhecer Tokyo e ficar em sua casa.
Mas amanhã vamos todos embora. Com alguma coisa a mais, com certeza.

Foi uma verdadeira viagem.

Thanx, domo arigatô, valeu!



CINEMA NO RIO
Quarta Maio 16th 2007, 23:53
Arquivado em: JAPÃO EXPRESS, CINEMARAMA

Depois de um recesso involuntário, cá estou em Ipanema, de frente para o mar, ao lado do Restaurante Vinícius, tendo chegado pelo aeroporto Antônio Carlos Jobim e esquentando os tamborins para uma apresentação de Bossa Nova com Dianna Miranda e convidados. Ah, e trabalhando também, which is great.
O motivo: um cliente do Japão, que contatou sua produtora em Tokyo ao deparar-se com o que parecia ser a locação ideal para seu produto: ” PERSIANAS” …rs. A tal produtora de Tokyo acenou para seu parceiro em produção de Los Angeles (Michael Deane, que realizou trabalhos com gente do tipo Andy Warhol, Paul Newman, whatever). “Claro, tenho um amigo no Brasil que acabou de dirigir o longa “NOEL - O poeta da vila”, o qual deve interessar-se na proposta. Pois neste exato momento, aleatoriamente, estava eu enviando currículos da forma mais despretensiosa. O cara recebeu, pensou no trabalho e, uma semana depois, cá estamos. A história é maior, os detalhes menos importantes. Então falamos em português, inglês e japonês. Os japas chegaram cheios de energia, querendo Bossa Nova, Caipirinha, Feijoada, Praias, Mulheres e …(!!!) Homens! A atriz é japonesa, o que por si só é um espetáculo à parte. Típica japonesa sorridente, com aquele ar meigo e pensamentos impuros. A Produtora também é woman e as duas juntas são bem malucas. Um dos japas quer surfar, outro quis, tanto que conseguiu e, enquanto estou aqui escrevendo de um quarto de hotel já fedendo cigarros, lá está ele, pulando feito um macaco em pleno Maracanã. Tudo bem, Fluminense e Brasiliense não é lá um jogo memorável, mas o estádio é e eu bem que gostaria de estar lá com eles. Buuuuut, sabe como é, Diretor de Cinema é excêntrico, gosta de fazer reunião às dez da noite smoking pot and everything. (: O
Enfim, tem tanta coisa pela frente que eu bem que estou curtindo a solidão. Paz. privacidade, Velvet Underground, uma coca gelada, cigarros and stuff like that.
Pela janela, o mar. Na calçada, putas. No hotel, um time de algum esporte vindo dos EUA, com loiras de 1,80m zanzando de lá pra cá. Nada mal num primeiro momento, mas elas praticamente fedem quando comparadas à delicadeza oriental presente.
Bem, só pra constar, mesmo que de igual importância, a locação é o REAL GABINETE DE LITERATURA PORTUGUESA. Dizem por aí que trata-se do maior acervo de LP da América Latina. Hoje, durante o Tech Scout, deu pra conferir a obsessão kamikaze do cidadão japonês. Livros, livros, clarabóia de vitral, lustres gigantescos e nomes de grandes referências da casa pintados pela parede. Sim, o lugar é maravilhosamente belo. Não, eu não viria do Japão pra cá somente para essa filmagem. Não, talvez não seja só impressão, but I think there’s more involved. Sim, eles defecam dinheiro e isso muda o conceito geral da cena.
Last and probably least, estou com minha fiel companheira de aventuras, registrando tudo, como o terceiro olho, pois quem sabe da posteridade? Além do que, é minha primeira vez com película e isso se tornará uma video-aula. O nome do filme?

“NOMURA PROUD” …..is that an authentic japanese stuff or what?

P.S.: como isso foi escrito em MAC, possivelmente existem erros…..but who cares?



Japão Express - Parte 1: “Uma lição de humildade ou uma mera diferença cultural?”
Sexta Dezembro 01st 2006, 01:59
Arquivado em: JAPÃO EXPRESS

Estava lá eu, no alto dos meus 16 anos, prestes a embarcar num vôo qualquer da JAL, rumo ao outro extremo do planeta. Era o auge da minha adolescência; dos dias inteiros no clube jogando basquete; das tardes na casa dos amigos, regadas a jogo da verdade, uns tragos surrupiados dos bares domésticos e namoricos de portão; enfim, definitivamente era uma época memorável da minha reles existência. E lá estavam meus melhores amigos, reunidos no aeroporto, com um ar de “isso não está realmente acontecendo”. Enfim, nada parecia exageradamente drástico e a expectativa da viagem preencheu uma boa parte dos meus pensamentos, até que meu vôo foi anunciado e tive que me dirigir ao portão de embarque. Estavam todos lá: tios e tias, primos, amigos da família, amigos meus, a ex-namorada (afinal, manter um relacionamento à distância por 2 anos seria uma loucura), minha avó e uma figuraça com pouco mais de 1 metro e meio, com um chapéu estilo caçador e um guarda-chuva na mão, sendo que todos fomos de carro para o aeroporto que é fechado. Esse cara, que agora se aproxima dos seus 90 anos, a quem chamei de vovô por longos 30 anos. Só sei que quando nos abraçamos, a ficha finalmente caiu: seriam 2 anos longe de tudo e todos. Todo mundo chorou, eu cheguei a soluçar e foi uma merda sem tamanho. Andar no corredor de embarque, olhar pra trás e ver aquele grupo de pessoas acenando e chorando foi como se, por um singelo momento, não houvesse futuro algum a me esperar.
O vôo foi um porre, os filmes eram massivamente estúpidos, as rádios eram de extremo mau-gosto e a noção de distância simplesmente se perdeu no ar. Uma viagem sem fim, quando ainda existia ala para fumantes nos aviões, com o infortúnio de ocupar um assento de meio, claro, junto dos não-fumantes. Foi a única vez em que cometi a ousadia de fumar no banheiro de uma aeronave. E foi a única vez que conheci uma autêntica japonesa (ou um autêntico de qualquer outra nacionalidade e nem tão autêntico assim) com o mesmo sobrenome que eu: ADACHI. Que ironia! Era praticamente meu anjo-da-guarda-parente que me levava rumo ao que para mim, naquela época, era a mais verossímil imagem do inferno.
Ok, torturas a parte, finalmente chegamos. Ah, vale citar que, de passagem por Los Angeles, tive meu primeiro contato com o cigarro que iria fumar por 2 anos nipônicos: o lendário MILD SEVEN. Experimentei um Marlboro que meu irmão havia comprado e achei um lixo. Era adocicado e causava a mesma sensação de um cigarro light qualquer. O atendimento foi patético e o lugar parecia aquelas lanchonetes americanas dos anos 50. Até as atendentes tinham aquele aspecto encorpado, com aquele avental de rendas. Só faltou o bloco de anotações e o chiclete.
JAPÃO. Como no Brasil era verão, fui bem confortável com uma camiseta e uma bermuda até os joelhos. E assim me deparei com a neve pela primeira vez. Bom, na verdade acho que a adrenalina era tanta que confesso que nem senti frio. E eis que vejo um carinha bem pequeno, até meio parecido com o batatinha (do manda-chuva), com uma plaquinha “Adachi”. Meu nome até que parecia bonito assim exposto numa placa, ou num uniforme de uma aeromoça. Era simples e não tinha aquelas dificuldades ou complexidades de um Nakagawa, por exemplo. Ou de um Katsuhiro, Kurosawa, Inoue. Nos cumprimentamos, ele foi logo pegando as malas que pareciam mais pesadas e nos levou até o carro. Durante o percurso até nossa nova casa (estávamos em Nagoya), o ser misterioso permaneceu calado, até porque nosso japonês não permitia um diálogo que não fôsse de monossílabos. Ele ligou o rádio numa estação de notícias e seguimos em silêncio. Tentei registrar todos os lugares, as paisagens, os lugares onde poderia visitar depois, até que caí no sono. E quando acordei, uma hora havia se passado e as paisagens mudaram de tecnológicas e avançadas para campos insólitos e desabitados. Finalmente chegamos, descarregamos as malas, analisamos o lugar e, numa primeira instância, tudo pareceu agradável. Era um apartamento pequeno, porém novo e as mobílias básicas estavam lá: TV, máquina de lavar, secadora, e fogão. Aí já percebemos uma das primeiras diferenças: no Japão, em hipótese alguma, adentra-se um domicílio sem que se tire os calçados. O chão das casas costuma ser de tatami, bem tradicional mesmo. E se pensarmos bem, é realmente um avanço em matéria de higiene. Aposto que estamos sempre pisando em cocôs desintegrados pelo tempo, que aderem na sola do tênis e invadem nossa residência diariamente. Dormimos.
No dia seguinte, acordei cedo e abri a cortina para ver o dia. Branco. Totalmente branco. Havia pelo menos uns 30 centímentros de neve cobrindo tudo. As ruas, calçadas, telhados e carros. Foi um momento mágico. Olhando mais ao fundo, pude ver um supermercado há uns 50 metros de distância. Peguei meu casaco e resolvi conferir aquilo tudo de perto, afinal, era um mundo novo a ser descoberto. Cada esquina tinha uma novidade, um detalhe a ser observado. A neve é indescritível, seja através de desenhos, gestos, palavras ou fotografias. Ela dá uma sensação de conforto e limpeza, como se você pudesse correr e se jogar de cara em qualquer lugar das redondezas. Na verdade, isso foi exatamente o que eu fiz. E em seguida, o tradicional boneco com direito a expressão sinistra e tudo mais. Nessas de regressar à infância, conheci outros brasileiros que residiam no mesmo prédio que nós. De certa forma, eu não conseguia me ver como eles. Eles haviam perdido o vínculo com o Brasil. Estavam lá há anos, mal lembravam-se do português ou de nossos mais triviais costumes. Havia sofrimento em seus olhos. Eram como filhos renegados, foragidos de seu país, que não lhes ofereceu grandes oportunidades. Mas eram todos ótimas pessoas e nos recepcionaram de forma maravilhosa, no melhor estilo tupiniquim. Conversa vai, conversa vem, perguntaram-nos sobre o Brasil, a violência, a miséria, o desemprego dentre outras banalidades que não vale a pena citar. Mas a primeira lição verdadeira que eu tive, no melhor estilo peculiar japonês, foi no decorrer de nossa conversa. Quando perguntados sobre a viagem, sobrevoamos os detalhes e citamos o motorista encarregado do nosso transporte, descrevendo-o minuciosamente. Lembramos então do nome dele e aí sim fiquei boquiaberto. Tratava-se do presidente da empresa que iríamos trabalhar. Ele poderia mandar um funcionário. Ele poderia mandar um táxi. Ele poderia não mandar ninguém. E ele carregou as minhas malas.