Quando as baratas pensam
Quarta Abril 02nd 2008, 22:02
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Sim, eu não gosto de baratas. Apenas mais um dentre milhares, eu sei, mas gostaria de especificar alguns dos motivos.
Pra exemplificar melhor, tomo um dia recente como um exemplo claro. Fui pra casa dos meus pais passar um tempo e, ao entrar no meu quarto, vi a dita cuja correndo pelo chão de madeira. O primeiro sinal de que elas pensam foi a sua reação ao me ver. Na verdade, foi necessária uma análise perspicaz pra perceber que ela estava correndo, exercendo o papel de fugitiva, desde que acendi a luz do quarto. Mas foi apenas quando percebeu que eu a fitava espantado que ela parou, abruptamente. Eu podia ler seu pensamento: “merda, ele me viu!”.
Ok, o susto passou e fui tomar as devidas providências. Daí uma breve explicação e uma peculiaridade. Não tenho problema algum em esmagar baratas nas ruas, quando as vejo. Mas dentro da sua própria casa, onde você costuma andar descalço, não dá. O que fiz? Fui buscar o inseticida. Fui correndo, na verdade, porque sabia que ela podia se perder na imensidão de minhas revistas num piscar de olhos. E foi o que aconteceu, eu voltei e nada da barata. Comecei a pensar em dormir no sofá da sala mas, caramba, fazia tanto tempo que eu não dormia naquela cama que a idéia logo me deixou. Bom, tive que jogar inseticida pelo quarto inteiro, nos cantos mais obscuros, tentando fazê-la dar as caras. E eis que surge a barata, subindo por um pôster na parede. Porra, eu nem lembrava que elas subiam paredes. Do pôster pra minha cama foi um pulo. Logo que ela pisou no chão novamente, sofreu um ataque intenso de inseticida, o suficiente para afogá-la. Mas não afogou. Essa ainda era sádica. Corria na direção do jato de veneno, como se fôsse uma criança nova-iorquina refrescando-se num hidrante de um subúrbio qualquer. A barata corria em minha direção! Pensei em Kafka, em David Cronenberg e em algo ao alcance pra esmagar a barata. Que se dane a higiene! Era uma situação de emergência.
E assim, o violão esmagou a barata. E, ainda hoje, quando vou andar no quarto, evito pisar em “certos lugares”.
A Chuva
Sexta Janeiro 18th 2008, 18:24
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Não é mais o mesmo sentido que ela tem pra mim.
Quando criança, tudo bem, estragava alguns daqueles dias especiais, mas, de uma forma geral, era uma delícia. Era aliviante, era refrescante e era divertido. Algumas brincadeiras ganhavam sentido especial em dias chuvosos. As poças viravam riachos e sabe-se lá quantos cenários de brincadeiras foram enriquecidos pela presença dela. Ao menos em minhas lembranças, alguns desses dias não seriam o mesmo se nesse pedaço da memória não houvesse a tal chuva.
E dentro do mar, à espera de ondas, sentado. Apenas o silêncio sendo invadido pelo som das gotas. A fina superfície da água sendo transgredida, acariciada e contemplada com os beijos molhados delas. Em minha cabeça sempre havia uma canção, uma música, como que para compôr uma trilha sonora para o momento. Não lembro bem quais eram as canções, mas lembro-me com clareza de cada ruído causado pela chuva.
Hoje a sensação não é a mesma. Ela atrapalha, causa enchentes, morte e desgraça. Transforma o já conturbado trânsito paulista em algo caótico, inimaginável. Molha a roupa das pessoas, estraga os mais modernos cortes e penteados. Causa furor no transporte público onde todos desistem das caminhadas e abarrotam as plataformas. Assim tem sido os dias de chuva na minha vida adulta. Pela janela eu vejo as pessoas correndo, escondendo-se debaixo de tapumes e amaldiçoando o infortúnio causado pela água-que-caiu-do-céu.
O que houve com aquela chuva que eu conhecia? O que houve com as pessoas que não apreciam mais um dia de chuva sequer?
Hoje vai chover o dia todo.
“O fantasioso destino do Zé”
Sábado Dezembro 09th 2006, 02:56
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O Zé sempre foi meio rebelde. Quando pequeno, já não era muito de sorrir para as fotografias. Vivia brigando com a molecada da rua onde morava, mas sabe-se lá por que, era junto dos mesmos que sempre se encontrava.
No colégio, começou a jogar xadrez e pingue-pongue. Gostava de desafios, da disputa e era extremamente competitivo. Chegou a se aprofundar no xadrez quando conheceu Yuri, um colega russo que lhe ensinou os primeiros passos. E assim, o Zé leu seu primeiro livro: “Xadrez Básico” que, de básico, não tinha nada. Tratava-se de uma bíblia de aproximadamente trezentas páginas que só foi encontrada num dos primeiros sebos do bairro.
O livro pareceu tão interessante que o xadrez foi ficando em segundo plano. Porém, como todo iniciante na literatura, Zé não sabia distinguir livros por gêneros. Seu segundo livro foi adquirido na casa de um tio que era engenheiro. “Homem ao Quadrado” era muito complexo e prematuro, mas a capa dura com impressão colorida, as ilustrações que ali se encontravam e a sonoridade daquelas palavras de siginificado desconhecido, aguçaram ainda mais o que havia se iniciado num tabuleiro de estratégias de guerra. Daí por diante, as literaturas brasileira e portuguesa, que compõem boa parte do que é lecionado nas escolas, mais os gibis e pequenos livretos adquiridos lá e cá, finalmente concluíram a introdução ao “mundo paralelo”. Houve também a primeira investida de Zé com as palavras. Nas aulas de Redação da quarta e quinta séries elaborou alguns poemas, dissertações e fragmentos de histórias. Pouco depois, substituiu os livros pelo basquetebol, a música e o desenho. O tempo voou.
E no momento de escolher sua faculdade, optou por Letras. Mas, no final do primeiro ano, sentiu que não era bem aquilo que procurava. Nos anos que se seguiram, após tentativas frustradas com Artes Plásticas, Jornalismo e Publicidade e Propaganda, ainda sem uma certeza exata do rumo a tomar, abandonou os estudos e dedicou-se à outras atividades. Frequentou a região litorânea e envolveu-se com surfistas no melhor estilo “rústico neanderthal” de viver (sem preconceitos). Teve uma banda de rock de garagem regada a vinho, coquetéis e drogas leves, trabalhou com vendas, publicidade e propaganda, informática e até companhias aéreas. Até ouvi dizer que ultimamente anda falando em cinema. Que absurdo! Pensando nisso, comparo minha vida à dele. Eu, que sempre zelei pela segurança entre quatro paredes e me confortei com a companhia de uma televisão e um emprego estável. Todos me dizem que eu sou um vencedor. Mas quando encontro o Zé, ele sorri. E eu o invejo.
Onde estão meus amigos?
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:51
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Por meio de fotografias eu os vejo. Lá estão eles nas minhas agendas telefônicas. Me mandando e-mails, não realmente direcionados a mim, mas a um turbilhão de pessoas que fazem parte de sua “humilde” relação de amigos. Mas onde estão eles de verdade? Aonde foram parar as nossas reuniões, os planos, as risadas e os bons momentos? Sempre que penso sobre isso, tenho a impressão de ter sido abandonado e esquecido por todos. Como se tudo continuasse igual, porém, sem a minha presença. Todos eles devem estar reunidos numa espécie de churrasco, rindo, se divertindo e relembrando os velhos tempos. E nenhum deles se lembrou de mim. Mas não é assim que funciona. Quase todos se distanciaram. São poucos aqueles que ainda mantiveram contato com pessoas que conheceram na infância. As pessoas parecem ter essa tendência. A de se desligarem uns dos outros, perdendo o contato e abandonando aquilo que chamamos de raízes. Eu, por exemplo, lembro-me bem de ter me afastado de alguns bons amigos sem nenhum motivo aparente. Pela simples perda de contato. Então percebo que sou eu quem tenho essa tendência doentia. Afastando-me das pessoas de quem eu gosto. Mas será que eu realmente gostava dessas pessoas?
Na época do colégio tive três amigas que juravam que jamais se distanciariam uma das outras e, surpreendentemente, me incluíram nesse juramento. E eu lembro que fiquei muito feliz por ter sido incluído em algo, fazendo delas minhas melhores amigas. Com elas eu chorei, dei risadas, fiz confissões e mostrei-me fiel à nossa promessa. Até me envolver amorosamente com uma delas. Com isso, houveram desavenças entre nós. Houve ciúme. Houve inveja. E toda a amizade de anos fora deixada de lado. Mas que diabos, éramos apenas crianças. Mas éramos crianças no ápice da palavra. Éramos sensíveis e tínhamos os mais belos e verdadeiros sentimentos à flor-da-pele. E novamente choramos, brigamos, discutimos e a amizade foi desfeita.
Durante anos fiquei me perguntando o que seriam dessas minhas amigas do passado, já que a pessoa com quem eu me envolvera havia me deixado por outra pessoa e da mesma forma, toda a amizade havia sido deixada de lado. Então eu me senti péssimo por perceber que errei e por ter carregado e alimentado esse erro por tanto tempo. E o meu maior erro foi achar que agora era tarde demais para voltar atrás e tentar encontrar essas pessoas que tanto significaram pra mim.
Mas não é que o destino nos prega agradáveis surpresas? Eis que, ontem mesmo, recebi notícias de ambas as amigas outrora perdidas dizendo que todos haviam perdido contato desde o colégio e que, como as duas se encontraram recentemente, resolveram me procurar também. E foi aí que eu constatei o meu erro. Deixei duas grandes pessoas de lado, pra ficar com outra que, mais tarde, também acabei por deixar de lado. Nesse momento, eu pedi desculpas a mim mesmo e me senti triste, por saber que nada voltaria a ser como foi na infância. As pessoas crescem, mudam e se esquecem das brincadeiras de antigamente. Se esquecem da pureza que carregávamos nos ombros e no nosso semblante. Se esquecem de como era bom ser criança. Só de conversar com essas amigas, percebi que tudo havia mudado. Responsabilidades, relacionamentos, compromissos. Tudo havia sido contagiado pela letargia e infelicidade dos adultos. Então eu me olho no espelho, neste exato instante em que escrevo, e faço outro juramento, mas desta vez para mim mesmo, sem que hajam outros confidentes. “Pois eu juro, do fundo da minha alma, que jamais deixarei de ser criança”.
Vida de cachorro
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:46
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Barulhos na casa. Alguém se aproxima e sinto que já é hora de acordar. Vejo as pessoas saindo pela porta, entrando em seus respectivos carros e saindo para sei-lá-onde. E assim permaneciam durante quase todo o dia. Mas eu sabia que, ao pôr do sol, todos estariam de volta.
No momento em que os carros partem eu também saio de minha pequena casa para mais um dia. Andando pelas ruas, sem nenhum plano em mente. Eu e minha companheira. Logo avistamos outras pessoas, mas com hábitos diferentes. Esses ficam o dia todo parados ao lado do que parece ser uma casa também. Mas a casa deles é muito menor. Todos que ali passam os cumprimentam. Então percebi que eles zelam pela segurança das redondezas. Nada mal ficar ao lado deles, afinal, eles sempre estão lá. Além deles, tem o meu melhor amigo. Ele se parece muito com os outros, mas diferente deles, ele não sai de carro todos os dias no mesmo horário. Às vezes sai pela manhã, mas volta logo. E mesmo quando ele sai no decorrer do dia ou de noite, ele sempre volta logo. Mas o que fez dele meu melhor amigo foi o fato dele sempre parar pra uma breve conversa ou um carinho, independente do horário. Isso me fez gostar de acompanhá-lo em alguns passeios que ele faz durante o dia. Costumamos ir a um parque todo arborizado e enquanto eu corro e me divirto rolando no chão, vejo ele com algum apetrecho em mãos, apontando para diversos lados. Às vezes eu mesmo acabo me tornando o alvo. Ele a aponta em minha direção, mas além do ruído que a máquina faz, nada acontece. Cada louco com sua mania.
Hoje o sol está ótimo e qualquer lugar parece ser um bom lugar para se deitar e descansar. Mas os carros barulhentos sempre aparecem e isso me incomoda. O barulho em demasia me incomoda. Tento sempre correr atrás deles, gritando para que não voltem mais, mas eles sempre voltam. E eu sempre corro e eu sempre grito, como num círculo vicioso. Algumas vezes, nessa minha loucura em afastá-los daqui, acabo me machucando só de encostar nos carros em movimento, mesmo com toda a minha astúcia. Lembro-me de uma vez, em que passeava junto de meu amigo nos mesmos locais de costume. Senti um odor agradável de comida que parecia estar guardada em um saco ao lado de um poste qualquer. O cheiro era irresistível e parei pra senti-lo de perto. Quando olhei novamente, meu amigo estava um pouco longe, do outro lado da avenida. Com a preocupação de não ser deixado pra trás ou de perdê-lo de vista, corri em sua direção sem me atentar a mais nada. Depois veio aquele barulho ensurdecedor, e lá estava eu, deitado em algum lugar sentindo uma dor indescritível. Eu mal podia me mover e sentia o odor do sangue que escorria de mim. Por um instante cheguei a pensar que aquele momento marcaria o meu fim. E onde estaria o meu amigo neste momento em que eu mais precisava dele? Senti-me abandonado e sem ninguém, mas sob um sol ofuscante vi uma silhueta que se aproximava mais e mais, até que, ao ouvir sua voz, reconheci ser meu amigo. Com sua voz reconfortante me levantou em seus braços e pude sentir as lágrimas que ele derramava sobre meu corpo. A dor ainda era intensa e mesmo com sua presença, eu ainda sentia medo. Entramos no carro de um desconhecido qualquer e eu desmaiei. Quando acordei estava em outro lugar, deitado sobre uma mesa gelada, e duas pessoas que eu nunca havia visto colocavam suas mãos em mim. Mas neste momento eu já não sentia mais nada. Após estes instantes de angústia, me vi esquecido numa pequena sala, preso entre barras de metal, sozinho com minha dor. E dessa forma adormeci.
No dia seguinte, acordei me sentindo bem melhor, ainda com as ataduras e ainda entre as barras de metal. Fui novamente invadido pela tristeza e pela sensação de que jamais veria meu amigo, ou nem sequer a minha casa. Nem me recordo por quanto tempo fiquei naquela situação, mas lembro-me bem do momento mais feliz de minha vida, quando meu amigo apareceu novamente e dessa vez, levando-me consigo de volta pra casa. E assim nosso laço de amizade se tornou eterno.
Mas o que me deixa extremamente curioso é o ritmo em que essas pessoas vivem. De um lado para o outro, como se estivessem sempre com pressa, sempre atrasados. Qual o sentido disso tudo? Será que eu sou o errado em ficar aqui, curtindo o que há de bom nessa vida ou errados estariam eles, por desperdiçarem tais momentos? Bem, não sou lá tão inteligente quanto dizem, mas sei bem que não trocaria essa minha vidinha por nada neste mundo.
Vamos falar de música
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:43
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15:00h. Encontro Leila no terminal de ônibus onde sempre nos encontramos e vamos então para o concerto beneficente de jazz. Sinceramente, eu nem havia me preocupado com quem iria tocar, mas como bom amante da música, sabia que, por se tratar de jazz, o show seria bom. Levamos os agasalhos numa mochila, para mais tarde serem trocados por ingressos. Respeito muito esse tipo de iniciativa, afinal quem está necessitando mais: o artista que possui discos gravados e recebe por eles e pelos shows que faz ou uma mãe com seus 5 filhos passando frio sem conseguir dormir? Não que o frio seja o único empecilho, ainda existem a fome, a miséria, a saúde, a educação e mais uma lista infinita de “pequeninos” empecilhos. Mas antes matar o frio do que ser morto por ele.
Nessa nossa empreitada rumo a Paranapiacaba – local do show – estavam também alguns amigos. Mario e Verônica estavam com suas mochilas cheias, como se fôssemos subir o Everest. Depois, em meio a conversa, ouvi Mario cochichando com alguém o fato de estar usando duas cuecas. Que exagero. Além deles estavam ainda Fabio e Raquel e mais duas pessoas que eu não conhecia. Decidimos que seria muito melhor se tomássemos um ônibus, ao invés de irmos de carro, devido ao trânsito que provavelmente haveria nas proximidades e também, devido à segurança. Não podemos esquecer que moramos na selva e somos todos macacos fingindo que somos humanos. Eis que compramos algumas garrafas de vinho e seguimos nosso rumo.
Ao nos aproximarmos da cidade, constatamos que nossas suspeitas tinham fundamento. Ao virarmos uma determinada curva, lá estava uma fila enorme de carros, um caos total. Alguns desistiam e davam meia-volta, outros tentavam ser o macaco mais sabido e tentavam cortar a fila pelo acostamento. Foi aí que presenciamos algo revoltante. Estávamos todos no ônibus prestando atenção na fila, quando vemos dois carros passando por nós, pelo acostamento. Logo em seguida, vimos um policial de moto passando também, na cata dos infratores. Todos que estavam com a gente vibraram. A justiça existe, pensamos. Agora o macaquinho sapeca vai ser penalizado. Provavelmente o guarda vai fazê-lo voltar. Que idiota, se deu mal. Estes foram alguns dos pensamentos compartilhados por todos, ao presenciarem tal fato. Mas o que vimos em seguida? Vimos um macaco que nasceu num berço de ouro convencendo o macaco fardado de que ele deveria deixá-los passar. Deu-lhe dinheiro como se fossem bananas. E o macaco de moto parecia estar tão faminto e obcecado pelas bananas, que os deixou passar. Pior, fez a fila parar, colocou-os na frente de todos e assim saiu em seu cipó rumo à mata. Tento não estragar o meu dia pensando nisso, então dou mais uma golada no vinho.
Já devidamente acomodados em um bar da cidade, bebíamos e falávamos todos ao mesmo tempo como se o mundo fosse acabar a qualquer instante. E começamos a falar de música, meu assunto predileto. Falávamos de nossas influências, de uma vida inteira marcada por uma trilha sonora ainda inacabada e, pensando melhor, infinita enquanto eu durar. Lembro-me dos meus primeiros contatos com a música, através de meu pai. Dos tempos de Frank Sinatra, Ray Conniff, Beatles, The Platters, Ray Charles, Johnny Rivers, Elvis Presley e Creedence Clearwater Revival. É claro que muito do que ouço hoje eu fui mesmo conhecer depois de crescido. E com isso, percebi que a música não morre. Ou pelo menos, a boa música. Porque sempre vai haver algum garoto redescobrindo o velho, associando ao novo, seja usando de suas influências, ou como mera inspiração. Afinal, como não se render também às boas novidades? Músicos como Radiohead, Bjork, Nine Inch Nails, Sonic Youth ou até mesmo o Mars Volta, passaram a ter um lugar especial em minha vida, junto às boas lembranças. E assim, a trilha sonora continua em andamento.
Voltando ao pessoal, vejo Mario pedindo mais cervejas ao garçom, que já havia passado a nos olhar com certo desdém. Talvez pela quantidade de garrafas alocadas em nossa mesa, talvez pela aparência pouco convencional de meus amigos e amigas ou talvez porque estivesse de mau-humor por ter brigado em casa com a esposa. Como sempre tive essa “veia idealista” em meu corpo, fiz questão de pedir mais algumas cervejas. Bebemos, bebemos e bebemos. No olhar de Verônica, percebi um ar de preocupação.
Neste mesmo dia, Brasil e Argentina decidiam algum torneio qualquer de futebol. Nunca fui ligado ao futebol, de fato. Já cheguei a torcer pra um time qualquer, por influência da família, mas conforme fui tomando conhecimento da máfia e do dinheiro que circulavam em torno do esporte, fui adquirindo mais raiva e desgosto pelo mesmo. Através de um pequeno rádio alocado no bar em que estávamos, pude ouvir alguns detalhes do jogo. E o Brasil vencia nos pênaltis. Viva o Brasil! Todos eufóricos, um motivo a mais para comemorações. Acho que só eu fiquei apático. Ou pelo menos, eu e Leila.
Chegada a hora do concerto, enfileiramo-nos como necessitados em busca de comida. O frio estava terrível, e todos nos sentíamos em Londres, vestindo cachecóis e malhas emboloradas há muito não usadas. Cada um com sua respectiva garrafa de vinho, com seu respectivo sorriso embriagado e eu já nem lembrava qual de nós usava duas cuecas. Já na boca da fila, conseguimos entrar pouco antes do portão se fechar e algumas pessoas ficarem de fora. Houve confusão, alguns reclamavam exaltados e os policiais faziam caras feias. O show em si foi ótimo. Stanley Jordan tocou com perfeição. Ele não usava palhetas e fazia o papel de baixista e guitarrista ao mesmo tempo. Chegou a bocejar ironicamente enquanto dedilhava um solo com a outra mão. Abriu uma garrafa d’água com o solo ainda em execução e tocou piano com o solo ainda em andamento. Nem Jimi Hendrix fazia isso! Em meio ao seu repertório, executou o hino nacional com uma característica marcante de jazz. Viva o Brasil!
O show acabara por volta das onze da noite e já nos preocupávamos com o ônibus da volta. A cidade já parecia fantasma, as pessoas iam se escondendo pouco a pouco e somente uma névoa pairava sobre as ruas. Conseguimos pegar o último ônibus, mas já pensávamos no trem que ainda teríamos que pegar, caso houvesse tempo. Todos estavam um bagaço, cheirando álcool, mas com um sorriso de satisfação. Chegamos na estação de trem e o último trem já nos aguardava. Chegamos na estação mais próxima de casa, mas ainda tínhamos um longo caminho a seguir, dessa vez caminhando. Fiquei mesmo muito preocupado pois já era tarde e apenas os párias procuravam por algum bar ainda aberto. Andamos bastante, até que chegamos no bairro de Mario, que nos daria uma carona pra casa. O dia havia sido perfeito. Tudo correu bem e conseguimos fazer tudo de acordo com nossa prévia programação. Até que tivemos uma surpresa. Há duas ruas da casa de Mario, fomos abordados por dois rapazes que pareciam ter algo perto de 15 anos cada. Um deles nos mostrou um revólver, daqueles que só se vê em filme, todo cromado. Pediu-nos tudo que tínhamos. Explicamos que não tínhamos nada, a não ser algumas roupas emboloradas e uma cueca sobressalente. O rapaz pediu a cueca. Eu não acreditava no que ouvia. Ele queria a droga da cueca! Senti vontade de rir, mas a revolta por estarmos sendo assaltados cobriu qualquer sentimento de ironia. Mario deu sua segunda cueca, após um dos rapazes explicar que queria a cueca de cima, pois esta não estaria suja. Já satisfeitos, os rapazes sumiram na escuridão de uma esquina qualquer. Chegamos a casa de Mario, que nos levou pra casa em seu carro. Cheguei em casa atordoado e bêbado ainda com meu sentimento de ira. Escovei os dentes, troquei as roupas emboloradas por outras limpas e me deitei. Quando já me sentia sonolento e com o corpo quente, pensei comigo mesmo: viva o Brasil!
“Amigos”no trabalho
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:41
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Eu trabalhava no centro de São Paulo, bem próximo ao Viaduto do Chá. Nem me recordo exatamente de como fui arranjar esse emprego infernal, mas sei bem que odiei trabalhar naquele lugar durante um longo período. Era uma reunião de fatores que me causavam asco. Pelas redondezas, velhos barrigudos andavam com seus ternos baratos, sapatos brilhantes e a barba encardida, talvez pela poluição da cidade ou por não serem adeptos dos rituais de higiene. Quando o perfume de alguma linda garota os atraía como o cheiro de morte atrai os corvos e urubus, era exatamente com essa última espécie que os mesmos passavam a se assemelhar. Esbugalhavam os olhos e praticamente a despiam com o pensamento. Imaginavam aquela preciosidade chegando cansada do trabalho, despindo-se rumo ao banheiro, livrando-se da roupa íntima e ensaboando o próprio corpo como se soubesse que estava sendo observada. Isso quando não iam mais longe e já se imaginavam penetrando em sua vulva, dentro de um box de banheiro público. Eram advogados, empresários, engenheiros e diretores que menosprezavam seres que estivessem abaixo de sua casta.
Todos desfilavam com seu último modelo de telefone celular, fosse gritando numa conversa dentro do elevador ou simplesmente com o brinquedo pendurado na testa, com todas as luzes possíveis piscando ao mesmo tempo. Isso me lembrava a época de Natal. Me fazia lembrar da árvore que montávamos todo final de ano.
No meio desse oásis artificial, lá estava eu, no 25º andar de um edifício qualquer, no meio de uma selva de pedras, acompanhando a disputa entre os edifícios mais altos pra saber qual estaria mais próximo do céu. Meu departamento era como um formigueiro. Uma colônia organizada, de forma a capacitar a maior concentração de pessoas possível, dentro de um pequeno espaço. Todos eram separados por baias, como cavalos num celeiro. Mal podiam olhar para os lados, pois corria até o boato de que éramos vigiados por câmeras escondidas. Confesso que muitas vezes perambulei pelo meu ambiente de trabalho em busca de tais usurpadoras de privacidade, mas nunca tive uma prova concreta. Então passei a não acreditar em tal lenda e tirei essa preocupação de minha cabeça.
Conheci muita gente interessante, como é de costume se conhecer quando somos inseridos em um novo contexto. Me lembro de um tal Doni, que se dizia testemunha de Jeová, era casado, mas mesmo assim, cortejava todas as desinformadas que se aproximassem dele. Foi o maior contador de histórias de quem ouvi falar, desde Forrest Gump. Contava de suas brigas, onde, quando se atracava com alguém, sempre estava em desvantagem. Mas, como nos filmes ou nas histórias em quadrinhos, era ele o vencedor. Com o passar do tempo, suas mentiras foram ficando mais e mais evidentes e, antecipando os acontecimentos vindouros, tratou de armar seu golpe final. Pouco antes de ser desligado da empresa, cometera alguns atos cleptomaníacos que acabaram por denegrir sua já despedaçada imagem perante os colegas de trabalho. Mas para o gran finale reservou sua última mentira a quem lhe perguntasse sobre sua demissão: disse a todos que havia pedido seu desligamento pois achara algo melhor a fazer. Digamos que ele saiu com classe.
Me lembro de Estela, a garota que me lembrava uma pêra. Ela tinha os ombros meio que atrofiados, um muito próximo ao outro. Sua cabeça era pequena e o corpo todo se alargava proporcionalmente até chegar ao quadril. Eu não considerava os braços e pernas quando a olhava, então era como uma pêra ambulante. Me lembro de ter conhecido um dos caras mais loucos de quem já tive notícia: o namorado dela. Parecia-me mais tratar-se de uma extra-terrestre. Ou alguma aberração da natureza. Seu gênio era horrível e em seu olhar percebia-se que estava sempre engendrando algum plano maquiavélico. Por diversas vezes deu facadas pelas costas de outras pessoas e conseguiu assim, um ambiente de isolamento. Vivia sozinha em seu pequeno mundo cruel, maldizendo das pessoas ao seu redor e vivendo das fantasias que construía através de fotografias que encontrava na internet. Cheguei a ter pena dela quando me mostrou uma montagem que havia feito num desses programas de computador, onde estavam ela e o louco, num lindo parque todo arborizado na estação da primavera acho, devido à quantidade de folhas espalhadas ao chão. Era realmente uma boa montagem. Quase não consegui diferenciar de uma foto real. E quando a questionei sobre o motivo de não tirar uma foto real em algum parque qualquer, ela tristemente me revelou que seus pais não a permitiam sair de casa apenas com seu amante, indiferentes ao fato de que sua “filhinha” já beirava os trinta anos de idade. E não pensem que todos tem a atitude, a sutileza e a paciência de enfrentar tal barreira. Saber que fui uma dessas pessoas que decidiu encarar tudo de frente me proporciona alívio.
Mesmo com essa análise negativa de minha parte, sou capaz de assumir que também fui uma figura peculiar enquanto lá estive. Fazia cara de poucos amigos, evitava conversas nas pausas para o café, almoçava sozinho e tentava sempre me manter distante desse mundo assustador. Talvez com isso eu tenha conseguido atrair sim a atenção de algumas pessoas verdadeiramente interessantes. Amigos que mantenho até hoje, alguns meses depois de ter deixado o inferno para trás. Entre eles, Rogério, um destemido amante da cultura diversa, sem fixar-se apenas a algum tópico. Mas entre os principais, lembro-me que amava o automobilismo, as ciências biológicas e em nosso último contato, soube que estava cursando Farmácia na USP. Fico contente por ele.
Como esquecer-me de Diana, grande companheira. Era quem parecia viver no planeta mais próximo de minha órbita. Falávamos sobre música, amores, infância, bebidas prediletas, contávamos piadas e chegamos a nos encontrar fora da empresa, em um boteco de esquina. Ela, com Fernando, seu namorado e eu acompanhado de Leila. Ela jamais estranhou ou comentou meu comportamento incomum e acabou se tornando muito amiga de Leila também. Ontem mesmo, recebi uma notificação dela, já nos informando de seu período de férias que se aproxima. E em seu bilhete, disse querer muito nos encontrar novamente. Isso significa bebedeiras, risadas e boas recordações.
Imagino o que falam de mim nos dias de hoje. Me pergunto se sentem falta dos desenhos e caricaturas que sempre me diverti em fazer. De meu comportamento adverso, de meu humor negro. Inevitavelmente, pessimista que sou, imagino que estejam se referindo à mim como o esquizofrênico que um dia passou em suas vidas. Passou e deixou marcas. Marcas de dor, de ódio, de inveja e de uma pessoa que nunca teve medo de dizer o que pensava. Que nada, ninguém se lembra de merda nenhuma.
A rotina
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:36
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Riiiiiiiiiiing!!!
Sempre tenho esse mesmo sonho, onde estou perto de descobrir e entender o real sentido da minha vida e, por incrível que pareça, o telefone sempre toca no momento crucial.
Riiiiiiiiiiing!!!
Eu sei que na verdade é o meu telefone tocando e me chamando de volta à realidade, mas é aqui que quero permanecer. Aqui as coisas não tem muito nexo nem razão de ser, mas ao menos aqui me sinto seguro com as minhas inseguranças.
Riiiiiiiiiiing!!!
- Maldição, alô!!! – gritou Mauricio ao tirar o monofone do gancho, derrubando o copo de água que havia levado ao seu quarto na noite passada. - Quem é o puto que tem coragem de me incomodar a esta hora?
- A esta hora? Você sabe que horas são? E pelo seu humor reluzente, percebo que andou trocando a noite pelo dia novamente.
- Que droga, Leila. Minha vida está um turbilhão nestes últimos meses. Desde que perdi meu emprego, sinto-me numa espécie de teste de comprovação de caráter ou integridade. Tenho que fazer exercícios mentais pra ter certeza de que ainda não fui acolhido pela loucura. E mesmo assim, sinto que estou perdendo.
- Eu sei como é. Bom, só te liguei pra avisar que no final de semana iremos a um concerto beneficente de jazz. Basta que levemos um agasalho.
- Ok, a gente combina os detalhes no decorrer da semana.
- Tudo bem. Enquanto isso, tenta não pensar muito nos problemas, arranje algo que lhe distraia. Isso vai te fazer bem. Beijo.
Odeio conselhos sem fundamento. Frases do tipo “não se preocupe, no final tudo dará certo”. Pro inferno com essas crenças e superstições. A vida é mais dura do que isso, com certeza. Ao colocar o telefone de volta na mesinha, olho para o relógio e percebo que já se passa do meio-dia. E a água já ocupou boa parte do carpete.
Levanto e sinto o corpo dolorido, a cabeça latejante. Como se tivesse bebido na noite anterior. Na verdade eu bebi mesmo, mas nada que pudesse causar tal sensação de ressaca. Acho que um banho vai ajudar.
Ao entrar no banheiro, percebo que as luzes do sol já invadem a janela, tirando a necessidade de luzes artificiais. Isso só ocorre à tarde. Curioso como tenho acordado sempre nesse momento. Mas tudo bem, até gosto disso, porque gosto de ver a água caindo sobre meu corpo, brilhante devido ao sol, sendo acariciado pela água quente que invade cada parte de mim. A sensação me causa êxtase e termino por me masturbar ali mesmo.
Já vestido e pronto para um novo dia de sofrimento, torturo-me ainda mais por lembrar que ainda é segunda-feira e que tenho a semana toda pela frente. Uma verdadeira batalha. Acho que vou começar levando meu cachorro para passear. Tomo um rápido copo de café apenas para garantir que vou permanecer acordado durante o “meu dia”. Pela janela percebo que meu cachorro ainda dorme. Mas diferente de mim, absorto das preocupações mundanas e materialistas. Sinto inveja dele. Um vira-lata que tinha tudo pra acabar numa sarjeta qualquer, ou acompanhando algum mendigo, acorrentado ao seu veículo cata-lixo e, diferente disso, encontra-se aqui em casa, sem ter que pagar aluguel, arrumar emprego ou até mesmo cortar o cabelo. Penso em colocá-lo na coleira, mas ao pegá-la, sinto uma repulsa em seu olhar. Tudo bem Buk, eu também sou grande apreciador da liberdade e entendo seu pesar. Coleira de lado, lançamo-nos em nosso passeio.
Ao chegarmos no local de costume - um grande gramado repleto de árvores daquelas que as crianças gostam de subir pra provar do gosto da aventura – Buk logo se vê no paraíso. Corre para todos os lados, cheira todas as plantas e chega até a rolar na grama de felicidade. Tiro algumas fotos dele e vamos embora. Sinto inveja dele de uma forma sadia. Não quero que ele perca todas estas regalias, mas queria muito poder desfrutar delas também.
Chegando em casa, telefono para Leila.
- Oi, sou eu de novo. Desculpe por ter sido rude, sim?
- Tudo bem, meu amor. Já estou acostumada. Afinal, você sabe que nunca foi uma pessoa muito estável emocionalmente. O que vai fazer agora?
- Hmmmm, ainda não sei. Talvez eu retome minhas leituras. Até nisso consigo ser confuso. Tenho pelo menos uns cinco livros os quais estou lendo simultaneamente. É a velha síndrome de iniciar, mas não terminar os meus planos. Um dos livros que estou lendo fala disso, inclusive. Fala de pessoas que tem uma espécie de distúrbio cerebral, que as fazem diferentes. É o tal do DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Dizem que essas pessoas tem uma forte tendência a serem impulsivas, distraídas, depressivas, hiperativas, etc. Eles até citam pessoas famosas que apresentam ou apresentavam sinais deste distúrbio. Pessoas como Einstein, Mozart, Beethoven, Da Vinci, Henry Ford, Van Gogh e até Marlon Brando. Você acredita que Beethoven, mesmo depois de ficar surdo, ainda compunha diversas de suas obras?
- Uh, Mauricio? Desculpe-me mas preciso desligar. Meu chefe começou a me encarar e sei bem o que ele quer dizer quando faz isso. Depois te ligo. Tchau.
Que merda. E eu nem cheguei a comentar que Henry Ford, ao desenvolver a técnica de linha de produção de automóveis, fazia-os todos da mesma cor. Daí uma frase desafiadora lançado pelo dito cujo: “O consumidor pode escolher a cor que ele quiser para seu carro, desde que seja preto.” Um sujeito deveras engraçado.
Já que não posso contar com a ajuda de Leila para distrair meus pensamentos, acho melhor achar o que fazer. Mas antes de qualquer coisa, preciso de música. Não sei como algumas pessoas conseguem viver alheias à musica e toda sua magnitude. São tantos os gêneros para os mais diversos gostos. Sem música, a vida é como um filme monocromático. Mesmo sem entender tal descaso, coloco o Blue Album do Weezer. Talvez seria melhor chamar-me Jonas e iniciar uma vida nova em algum outro lugar. Da janela de meu quarto consigo observar Carmem e Luciana, minhas vizinhas lésbicas. É fato que a homossexualidade deixou de ser notícia de telejornal, mas ainda estamos tão longe de sermos sinceros. Convivemos com o racismo e a discriminação a toda hora, em todos os lugares. Os negros, asiáticos, judeus, latinos, gordos e loucos que o digam. Talvez isso aconteça graças aos ratos de esgoto. São essas pessoas que acordam, se dirigem ao trabalho, retornam para seus lares e vão dormir, sem propósito algum na vida. Presos a uma rotina de merda onde todos os dias se tornam iguais. Que confundem o homossexualismo com putaria. Só porque duas mulheres se gostam, não quer dizer que uma delas deve exercer o papel de homem quando estão juntas. Trata-se apenas de uma mulher que gosta de outra mulher. Simples, não? Tenho amigos homossexuais e os respeito muito. Tanto pela coragem de assumir tal condição e enfrentar o preconceito, quanto pelo fato de deixarem de lado todos os tabus para serem felizes. Mas odeio bichas-loucas. Não é porque você gosta de uma pessoa do mesmo sexo, que precisa se encher de purpurina e sair por aí passando a mão nos outros. Acho que são esses “tipos” que denigrem a imagem do homossexualismo. Mas que se foda a imagem!
Ao acender um cigarro, sinto a mesma dor que tem me visitado regularmente. Minha garganta dói, talvez por fumar demais, ou por causa dos anos em que era vocalista de uma banda punk. E isso me dá medo. Aldous Huxley morreu de câncer na garganta. O alfaiate amigo de meu pai, Clóvis se não me falha a memória, faleceu do mesmo mal. Dou uma tragada forte e tento esquecer tudo isso.
Só agora me lembrei que amanhã tenho uma entrevista para um novo emprego. Ou seja, roupas ridículas, comportamento artificial e uma tentativa sem empenho algum de minha parte de parecer normal. Detesto estas entrevistas, porque a falsidade se torna ainda mais latente. As pessoas fedem a mentira. Fingem dialogar sobre um determinado assunto, quando na verdade estão te analisando dos pés à cabeça. Querem sempre uma nova engrenagem que não deixe a máquina parar. Mas que droga, preciso do dinheiro.
Ao pensar em toda a podridão em que vivemos, prometo a mim mesmo que não acabarei como meus pais, que tanto trabalharam e foram honestos para não terem reconhecimento algum nos dias de hoje. Prometo viajar por esse mundo imenso que esconde tantos segredos e culturas distintas. Afinal, se o mundo é mesmo tão grande, como poderia ficar satisfeito em nascer, viver e morrer no mesmo lugar?
Incomodado pelo ócio, decido ir à alguma livraria conferir as novidades. E chegando naquela que freqüentei durante anos, vejo-a com as portas fechadas e uma faixa que diz: “Nova loja de cosméticos em breve”. É inacreditável como a futilidade parece estar em todo lugar. Sinto vontade de chorar, não pela livraria em si, mas pela sensação horrenda de que as pessoas estão se tornando robôs, sem apreço pela cultura. Acho que a televisão nos faz assim. A televisão nos impede de pensar. Está tudo ali, de fácil absorção e entendimento. Eles perguntam. Eles mesmos respondem. E tudo fica mais fácil. Talvez seja assim que a sociedade nos queira. Burros ao ponto de não podermos brigar pelo que nos é de direito. Sinto-me menos humano. E, como uma prova de minha teoria, descubro ao perguntar a um taxista que esta era a última livraria do bairro. Pego o carro e vou até o shopping, na tentativa de levar meu plano até o fim. Agora, além de pagar preços absurdos por um livro, ainda tenho que pagar pra estacionar o carro. Mesmo assim, com tantos motivos para voltar pra casa de mão vazias e frustrado, gasto de minhas vãs economias num exemplar de Kerouac. Pelo menos a minha “droga” ainda se encontra à venda em algum lugar. Volto pra casa e lá está meu pequeno Buk, abanando o rabo e pulando em cima de mim. Olho pra ele, no fundo de seus olhos e digo: “Você é meu melhor amigo, seu pestinha”. Como se pudesse entender, ele dá um latido em resposta e sai correndo pra brincar com os outros cachorros na rua. Eu e minha inveja novamente. Ao chegar em casa, vejo que o dia quase se foi por completo. Mas é das madrugadas que eu gosto mais. É quando meus pensamentos mais bonitos vem à tona. Quando o mundo dorme e eu paro de odiá-lo. É quando consigo escrever, é quando consigo sorrir. E ao olhar para o relógio e ver que o dia está quase a nascer novamente, escovo os dentes, encho um copo d’água e vou me deitar.