The Lost City (A Cidade Perdida) + Parlamentares Revolucionários
Quinta Dezembro 21st 2006, 01:57
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CINEMARAMA
Seguindo recomendações e interessado em conhecer para criticar, resolvi assistir à essa catarse no sentido ruim da palavra. Não sei se foi a primeira investida de Andy Garcia como diretor de cinema, mas enfim, considero um fiasco total.
O filme se passa em Cuba -1958- e mostra uma típica família mafiosa, sendo que Garcia representa o mais velho entre os três filhos, além de ser o mais responsável, bem-sucedido financeiramente e dono de um cabaré musical (?). A trilha sonora é de primeira, com apresentações de bandas a la Buena Vista Social Club (do lendário Ibrahim Ferrer que se foi recentemente). A família é rica, Andy Garcia é rico e os dois irmãos remanescentes resolvem aderir aos revolucionários, estes guiados por ninguém menos do que Fidel Castro e seu braço direito, o Comandante Guevara. So far so good. Confesso que desconheço todos os detalhes da personalidade e também das realizações de ambos a ponto de julgá-los, mas fica claro que o perfil mostrado chega a ser cômico, de tão ridiculamente exagerado.
Daí por diante, a história mostra uma família da alta sociedade que se sente abalada e desestruturada, pois, segundo a filosofia dos mesmos, a união familiar deve sempre ser mais importante que qualquer causa, ideal ou outra coisa que caiba na imaginação. E então os ricos choram. E lamentam. Porque a jogatina foi proibida. Porque a desigualdade passou a ser questionada. A vontade de parar o filme era grande, mas perder a oportunidade de duvidar do filme até o fim garantiu a energia que começava a se esvair rapidamente.
Dustin Hoffman faz uma aparição sofrível, de menos de cinco minutos e Bill Murray ajuda a aguentar a dor com sua típica interpretação “eu sou assim na vida real” (The Life Aquatic with Steve Zissou, Encontros e Desencontros).
Como se não bastasse, além de perder os irmãos para a “causa”, Andy perde também a namorada, que antes era cunhada e transforma-se numa “burguesa revolucionária”. O romance faz a dor aumentar. Não dá pra chamar de clichê. É pior.
Então fica registrada a dica: “NÃO ASSISTA!”
Finalmente eu penso em aumento de 90,7%. Enquanto alguns sonham que algo de bom é discutido no ninho de víboras, são esses os problemas em pauta. Mas isso também me faz pensar que toda essa sucessão de absurdos e insanidades pode vir a ser uma etapa num processo evolutivo. Porque o brasileiro é bundão, nada de novo, mas até que ponto?
2 + 2 = 5
Domingo Dezembro 17th 2006, 01:33
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LIMBO
Será que existe Deus? Vamos mesmo reencarnar em outra carcaça após morrermos? E a vida em outros planetas? O Sol vai apagar, como uma estrela? Aquecimento global? Em quanto tempo? E quanto ao desemprego? E minha carreira, vai ser promissora? E meus filhos, como vão viver? Aonde o Brasil vai parar? Será que os desonestos pagam? Aonde? Quando? O que é a integridade de uma pessoa, se comparada à complexidade ou insignificância de uma reles vida? Ou a vida é mais valorosa do que pensamos? Quem é inteligente ou racional: os animais, vivendo de maneira primitiva ao olhar humano, coexistindo com o meio-ambiente, ou o homem e sua tecnologia, avançando sobre o planeta como um câncer?
Respire, expire, um, dois, respire, expire.
O que vou jantar amanhã, será que vou pagar minhas contas do mês? Qual a camiseta que combina com essa calça? Qual o disco que vou ouvir no caminho para o trabalho? Qual filme assisto hoje? Alguma pendência na casa? Estou me alimentando bem, me cuidando? Como vai ser o final de semana?
Respire, expire.
O que faço agora?
Vida real
Sábado Dezembro 16th 2006, 00:36
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LIMBO
Às vezes a vida imita o filme. As peças se encaixam de tal maneira que tudo parece parte de um conto-de-fadas. E nossos amigos falam exatamente o que precisávamos ouvir, pois, de forma surpreendente e mesmo sem participar do seu dia-a-dia, eles sabem o que você quer ouvir. Conselho de amigo? Conselho?
Às vezes tudo parece complexo, infinitas possibilidades, um mar de opções. A vida torna-se uma aventura e tudo parece novo, atraente e belo. Deixa-se levar ao vento, dançando conforme a música, de lá pra cá.
Às vezes sentimos raiva e jogamos tudo pro alto, pouco importando o que é “tudo”. Será que é tudo? Tudo cai e se estilhaça, dificultando sua remontagem. Mas com sorte, conseguimos reagrupar todos os detalhes e minúcias.
Às vezes brincamos com os sentimentos, como num jogo, ditado por regras premeditadas que funcionaram com todos os demais. E funciona com você também, como já era de se esperar. Um desvio no olhar, certo desinteresse, mudança de percurso. Tudo isso é superado quando utilizamos uma “jogada ensaiada”.
Às vezes nos entregamos a uma paixão, acreditando no sentimento que prevalece à razão, como nos filmes, como sentimos por dentro. E tudo parece um sonho.
Às vezes nada disso acontece, a vida passa, as pessoas se perdem, os sentimentos são sufocados e a distância prevalece. E tudo por não se permitir viver.
Será que estou sonhando?
Sábado Dezembro 16th 2006, 00:19
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CINEMARAMA
O de hoje foi Waking Life (2001), de Richard Linklater (vide Escola do Rock; Antes do Amanhecer; Antes do Pôr-do-Sol; Suburbia; Jovens, Loucos e Rebeldes).
A primeira investida do diretor utilizando-se da rotoscopia digital, que é a animação sobreposta nas imagens captadas como filme. Recentemente realizou uma experimentação similar com o ainda inédito no Brasil (com excessão da Mostra Internacional de SP e dos hackers) Scanner Darkly, desta vez contando com a participação de atores de peso como Keanu Reeves, Woody Harrelson e Robert Downey Jr.
Voltando ao Waking Life, a história baseia-se em sonhos. Na verdade, o assunto abordado é o significado do sonho. “Estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes enquanto sonhamos?”, é o que questiona Linklater. Tem participações interessantes como a de Ethan Hawke e Julie Delpy (o casal de Antes do Amanhecer e sua sequência). Na verdade, salvo raríssimas excessões, todos os papéis são muito bem interpretados. Os atores incorporam filósofos, citam Dostoievski, D.H.Lawrence, Sartre, entre outros. E as falas, que muitas vezes são monólogos, são ricos, filosóficos e coerentes, além de desafiadores.
Como podemos sonhar com lugares e pessoas que jamais conhecemos? O que gera essa sensação de realidade enquanto estamos sonhando? O passado realmente existe? Estas e outras questões são analisadas de forma inteligente e sagaz.
Visualmente, agrada os fãs de animação, mas pode incomodar os olhares destreinados, pois é exuberante nas cores, a câmera treme o tempo todo, e os cenários se movimentam.
Em suma, trata-se de um bom filme, questionador, intrigante e principalmente filosófico.
Nem só de sushi vive um japa!
Em homenagem ao site www.insanus.org/garfada que publicou minhas dicas de culinária oriental, resolvi acender uma luz no fim do túnel àqueles que já estão cansados de olhar para aquele chatíssimo “barquinho”. Parece uma imensidão de opções enquanto descrito no cardápio e imortalizado na sua mente, mas quando o dito cujo chega, tudo parece ser igual e, dependendo do tempero do sushiman, tudo realmente é igual.
Aproveitando a deixa, comentarei sobre alguns dos restaurantes que visitei recentemente:
- TORÁ: fantástico, o cardápio é completo, os temperos são sob medida e o preço é camarada. Mesmo considerando o fato de que se situa no interior de um clube de tênis e squash, esportes típicos de quem tem grana saindo pelas orelhas. Claro, existem excessões. Fica na região do ABC, em São Bernardo para ser mais exato. Entrou virou freguês.
- WASABI: muito similar ao TORÁ, ótimo atendimento, bom conhecimento dos pratos por parte dos garçons, preços coerentes e aceitáveis, pratos cuidadosamente preparados. A variedade também é um atrativo. Situa-se atrás do Shopping Metrô Santa Cruz. Umas duas ruas pra baixo. Vamos lá, consulte na internet…
- NANDEMOYA: no tradicional bairro da Liberdade, funciona no sistema de peso, o que geralmente deprecia a qualidade da comida. Não é o caso deste aqui. Grande variedade, preço justo, ambiente espaçoso e, na última vez que fui, tive o deleite de comer ao som de um japonês de seus 35 anos que cantava “The answer my friend, is blowin’ in the wind….the answer is blowin’ in the wind”, no melhor estilo Dylanesco com direito a gaita e tudo mais. Aham, voltando ao que interessa, tem como maior atrativo a grande variedade de pratos. O caldo que é feito de Missô (preparado de soja - Missoshiru) é for free.
- Heiwa: este aqui merece uma dica especial. NÃO VÁ!!! Em hipótese alguma, mesmo que convidado, mesmo que de graça, não faça essa besteira. Você corre o risco de trauma ante uma cultura milenar composta de riquíssimos pratos. Absurdamente caro, atendimento sofrível, pratos com cara de “economizei-pra-lucrar-mais”. Exato, e você paga o pat..ops, o peixe. Também em São Bernardo, na Avenida Francisco Prestes Maia, próximo ao Carrefour (é bom ser meticuloso neste caso pra que uma certa distância seja mantida).
E quando você visitar este ou outro restaurante qualquer, ouse! Não se restrinja ao “Sashimi disso”, “Sushi daquilo”, “Temaki não-sei-o-quê”. Experimente a nata do cardápio. Ou você acha mesmo que, no Japão, as pessoas vão à restaurantes pra pedir barquinho?
Como primeiro passo, eu recomendaria aquele que é o meu campeão absoluto: TEISHOKU. Esse prato faz um grande mix de várias vertentes da culinária japonesa e contém boas opções para paladares ocidentalizados. É composto de arroz, algumas fatias de sashimi, tempurá (frutos do mar e legumes envoltos por farinha), anchova grelhada e uma série de opções que variam de acordo com a época ou restaurante.
Outra boa dica, principalmente para dias frios, é o UDON. Trata-se de um Miojo Turbinado. Calma, o macarrão é muito melhor, o caldo também, os temperos dão de 10 a 0 e conta com aditivos como acompanhamento.
E a última dica (e talvez a mais adaptada ao paladar ocidental) é o SUKIAKI. Basicamente Arroz, acompanhado de legumes e carnes que são preparadas numa chapa, na mesa do cliente, com um tempero muito especial.
Aventure-se e ouse voltar para comentar.
Yin & Yang
Terça Dezembro 12th 2006, 00:47
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CINEMARAMA
Inauguro aqui meu canto de divagações e experiências ligadas ao CINEMA. Totalmente despretensioso, falarei de qualquer coisa, desde resenhas ou comentários de filmes, até relatos e ocorrências reais dos meus “projetos” na área.
Nestes dois dias que se passaram assisti a duas pérolas contemporâneas que me serviram de ótimo entretenimento. Here we go:
- ELSA & FRED:
Produção e realização Argentina/Espanha, dirigida por Marcos Carnevale, que admitiu tratar-se de um “sonho pessoal” refazer a cena de “A Doce Vida”, de Federico Fellini com “Martiéllo Mastroiánni” e Anita Ekberg, quando ambos encontram-se na Fontana Di Trevi. Com a singela diferença de que os personagens do “remake” tem, respectivamente ao título, 82 e 79 anos. Pode parecer água com açucar, se você levar em consideração a sinopse que acompanha o filme, mas é de se surpreender. Fala de relacionamentos, envelhecimento, medos, aventuras e principalmente sonhos. E pra manter o hábito de ser piegas, digo que gostei da maneira como o filme mostra que as loucuras de amor não são pertinentes a uma única época de nossas vidas. Sair sem pagar a conta do restaurante, tomar banho de chuva, fazer uma simples surpresa ocasional. Coisas do dia-a-dia. Enfim, recomendo.
- EDUKATORS:
Alemanha, 2004. Dirigido por Hans Weingartner, tem no elenco Daniel Brühl (Adeus, Lênin).
Basicamente, são três personagens incrivelmente reais que poderiam ser seus vizinhos. Todos acreditam em movimentos pacifistas e tem um ponto de vista extremamente crítico em relação aos hábitos de hoje, tanto que acabam criando uma espécie de ritual, quando invadem casas de pessoas ricas sem roubar um único objeto. Apenas desarrumam os móveis e os reordenam empilhados como uma escultura, deixando uma mensagem: “Seus dias de fartura estão chegando ao fim”. A idéia chega a fazer sentido, afinal, roubando, estariam igualando-se a meros marginais e contrariando os próprios princípios. Deixando a mensagem, acreditavam estar plantando uma semente ou um medo, que assombraria a pessoa para sempre. Como uma ameaça iminente. Uma bomba relógio prestes a estourar a qualquer momento.
Te faz parar pra pensar em diversos aspectos da vida cotidiana. Você revê os hábitos, pensa no seu emprego, questiona sua liberdade. Você fica puto. Vide Clube da Luta.
Mas tirando o esquerdismo, o filme é minucioso. Todo detalhe conta. A história progride, não pára. Os personagens evoluem, não se trata de um melodrama, e a relação entre eles é impulsiva, compulsiva e doentia. E tem paixão.
Imperdível, com uma sacada genial para o gran finale. Junte-se a eles. Ou a nós.
“O fantasioso destino do Zé”
Sábado Dezembro 09th 2006, 02:56
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CONTOS
O Zé sempre foi meio rebelde. Quando pequeno, já não era muito de sorrir para as fotografias. Vivia brigando com a molecada da rua onde morava, mas sabe-se lá por que, era junto dos mesmos que sempre se encontrava.
No colégio, começou a jogar xadrez e pingue-pongue. Gostava de desafios, da disputa e era extremamente competitivo. Chegou a se aprofundar no xadrez quando conheceu Yuri, um colega russo que lhe ensinou os primeiros passos. E assim, o Zé leu seu primeiro livro: “Xadrez Básico” que, de básico, não tinha nada. Tratava-se de uma bíblia de aproximadamente trezentas páginas que só foi encontrada num dos primeiros sebos do bairro.
O livro pareceu tão interessante que o xadrez foi ficando em segundo plano. Porém, como todo iniciante na literatura, Zé não sabia distinguir livros por gêneros. Seu segundo livro foi adquirido na casa de um tio que era engenheiro. “Homem ao Quadrado” era muito complexo e prematuro, mas a capa dura com impressão colorida, as ilustrações que ali se encontravam e a sonoridade daquelas palavras de siginificado desconhecido, aguçaram ainda mais o que havia se iniciado num tabuleiro de estratégias de guerra. Daí por diante, as literaturas brasileira e portuguesa, que compõem boa parte do que é lecionado nas escolas, mais os gibis e pequenos livretos adquiridos lá e cá, finalmente concluíram a introdução ao “mundo paralelo”. Houve também a primeira investida de Zé com as palavras. Nas aulas de Redação da quarta e quinta séries elaborou alguns poemas, dissertações e fragmentos de histórias. Pouco depois, substituiu os livros pelo basquetebol, a música e o desenho. O tempo voou.
E no momento de escolher sua faculdade, optou por Letras. Mas, no final do primeiro ano, sentiu que não era bem aquilo que procurava. Nos anos que se seguiram, após tentativas frustradas com Artes Plásticas, Jornalismo e Publicidade e Propaganda, ainda sem uma certeza exata do rumo a tomar, abandonou os estudos e dedicou-se à outras atividades. Frequentou a região litorânea e envolveu-se com surfistas no melhor estilo “rústico neanderthal” de viver (sem preconceitos). Teve uma banda de rock de garagem regada a vinho, coquetéis e drogas leves, trabalhou com vendas, publicidade e propaganda, informática e até companhias aéreas. Até ouvi dizer que ultimamente anda falando em cinema. Que absurdo! Pensando nisso, comparo minha vida à dele. Eu, que sempre zelei pela segurança entre quatro paredes e me confortei com a companhia de uma televisão e um emprego estável. Todos me dizem que eu sou um vencedor. Mas quando encontro o Zé, ele sorri. E eu o invejo.
Filosofia de fundo de quintal…
Quarta Dezembro 06th 2006, 23:33
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LIMBO
É deveras engraçado. Durante anos, alimentei um senso crítico quase que infalível e extremamente intenso. Não conseguia olhar as pessoas sem criticá-las, sem enumerar “defeitos”, falhas ou até pequenas particularidades. Com isso, sentia-me ativo, vivo. E o monstro foi crescendo, crescendo, até que o monstro era eu.
O ser humano não é perfeito, nada é perfeito. Basta que nos olhemos no espelho e seremos capazes de entender isso muito bem.
E, numa análise menos complicada, também é possível entendermos isso. Quando a gente critica, algo negativo sai de nossa boca. Algo negativo se forma em nosso ser. E isso tem repercussões. Incomoda as pessoas ao nosso redor, incomoda àqueles que dividem o tempo conosco. E isso tudo vai se tornando chato, repetitivo e cansativo. Basta usar a velha técnica da balança.
Então decidi fazer um teste. Daqueles bem típicos de terapia ou aulas de yoga. “Imagine que você está num campo ensolarado…”. Bom, na verdade não foi tão estúpido assim, mas foi algo parecido. Quando vejo algo que não me agrada, olho para algo que me agrade. Olho para as pessoas que estão sorrindo, que estão descontraídas. Conto até 10…na verdade 10 é pouco….eu tenho atingido o “nirvana espiritual” quando estou perto dos 50…mas funciona. E no final do dia, você também pode sorrir. É quase osmose. Essas coisas são contagiosas, passam de um para o outro. Só não vale rir da cara dos outros.
Onde estão meus amigos?
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:51
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CONTOS
Por meio de fotografias eu os vejo. Lá estão eles nas minhas agendas telefônicas. Me mandando e-mails, não realmente direcionados a mim, mas a um turbilhão de pessoas que fazem parte de sua “humilde” relação de amigos. Mas onde estão eles de verdade? Aonde foram parar as nossas reuniões, os planos, as risadas e os bons momentos? Sempre que penso sobre isso, tenho a impressão de ter sido abandonado e esquecido por todos. Como se tudo continuasse igual, porém, sem a minha presença. Todos eles devem estar reunidos numa espécie de churrasco, rindo, se divertindo e relembrando os velhos tempos. E nenhum deles se lembrou de mim. Mas não é assim que funciona. Quase todos se distanciaram. São poucos aqueles que ainda mantiveram contato com pessoas que conheceram na infância. As pessoas parecem ter essa tendência. A de se desligarem uns dos outros, perdendo o contato e abandonando aquilo que chamamos de raízes. Eu, por exemplo, lembro-me bem de ter me afastado de alguns bons amigos sem nenhum motivo aparente. Pela simples perda de contato. Então percebo que sou eu quem tenho essa tendência doentia. Afastando-me das pessoas de quem eu gosto. Mas será que eu realmente gostava dessas pessoas?
Na época do colégio tive três amigas que juravam que jamais se distanciariam uma das outras e, surpreendentemente, me incluíram nesse juramento. E eu lembro que fiquei muito feliz por ter sido incluído em algo, fazendo delas minhas melhores amigas. Com elas eu chorei, dei risadas, fiz confissões e mostrei-me fiel à nossa promessa. Até me envolver amorosamente com uma delas. Com isso, houveram desavenças entre nós. Houve ciúme. Houve inveja. E toda a amizade de anos fora deixada de lado. Mas que diabos, éramos apenas crianças. Mas éramos crianças no ápice da palavra. Éramos sensíveis e tínhamos os mais belos e verdadeiros sentimentos à flor-da-pele. E novamente choramos, brigamos, discutimos e a amizade foi desfeita.
Durante anos fiquei me perguntando o que seriam dessas minhas amigas do passado, já que a pessoa com quem eu me envolvera havia me deixado por outra pessoa e da mesma forma, toda a amizade havia sido deixada de lado. Então eu me senti péssimo por perceber que errei e por ter carregado e alimentado esse erro por tanto tempo. E o meu maior erro foi achar que agora era tarde demais para voltar atrás e tentar encontrar essas pessoas que tanto significaram pra mim.
Mas não é que o destino nos prega agradáveis surpresas? Eis que, ontem mesmo, recebi notícias de ambas as amigas outrora perdidas dizendo que todos haviam perdido contato desde o colégio e que, como as duas se encontraram recentemente, resolveram me procurar também. E foi aí que eu constatei o meu erro. Deixei duas grandes pessoas de lado, pra ficar com outra que, mais tarde, também acabei por deixar de lado. Nesse momento, eu pedi desculpas a mim mesmo e me senti triste, por saber que nada voltaria a ser como foi na infância. As pessoas crescem, mudam e se esquecem das brincadeiras de antigamente. Se esquecem da pureza que carregávamos nos ombros e no nosso semblante. Se esquecem de como era bom ser criança. Só de conversar com essas amigas, percebi que tudo havia mudado. Responsabilidades, relacionamentos, compromissos. Tudo havia sido contagiado pela letargia e infelicidade dos adultos. Então eu me olho no espelho, neste exato instante em que escrevo, e faço outro juramento, mas desta vez para mim mesmo, sem que hajam outros confidentes. “Pois eu juro, do fundo da minha alma, que jamais deixarei de ser criança”.
Vida de cachorro
Segunda Dezembro 04th 2006, 22:46
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CONTOS
Barulhos na casa. Alguém se aproxima e sinto que já é hora de acordar. Vejo as pessoas saindo pela porta, entrando em seus respectivos carros e saindo para sei-lá-onde. E assim permaneciam durante quase todo o dia. Mas eu sabia que, ao pôr do sol, todos estariam de volta.
No momento em que os carros partem eu também saio de minha pequena casa para mais um dia. Andando pelas ruas, sem nenhum plano em mente. Eu e minha companheira. Logo avistamos outras pessoas, mas com hábitos diferentes. Esses ficam o dia todo parados ao lado do que parece ser uma casa também. Mas a casa deles é muito menor. Todos que ali passam os cumprimentam. Então percebi que eles zelam pela segurança das redondezas. Nada mal ficar ao lado deles, afinal, eles sempre estão lá. Além deles, tem o meu melhor amigo. Ele se parece muito com os outros, mas diferente deles, ele não sai de carro todos os dias no mesmo horário. Às vezes sai pela manhã, mas volta logo. E mesmo quando ele sai no decorrer do dia ou de noite, ele sempre volta logo. Mas o que fez dele meu melhor amigo foi o fato dele sempre parar pra uma breve conversa ou um carinho, independente do horário. Isso me fez gostar de acompanhá-lo em alguns passeios que ele faz durante o dia. Costumamos ir a um parque todo arborizado e enquanto eu corro e me divirto rolando no chão, vejo ele com algum apetrecho em mãos, apontando para diversos lados. Às vezes eu mesmo acabo me tornando o alvo. Ele a aponta em minha direção, mas além do ruído que a máquina faz, nada acontece. Cada louco com sua mania.
Hoje o sol está ótimo e qualquer lugar parece ser um bom lugar para se deitar e descansar. Mas os carros barulhentos sempre aparecem e isso me incomoda. O barulho em demasia me incomoda. Tento sempre correr atrás deles, gritando para que não voltem mais, mas eles sempre voltam. E eu sempre corro e eu sempre grito, como num círculo vicioso. Algumas vezes, nessa minha loucura em afastá-los daqui, acabo me machucando só de encostar nos carros em movimento, mesmo com toda a minha astúcia. Lembro-me de uma vez, em que passeava junto de meu amigo nos mesmos locais de costume. Senti um odor agradável de comida que parecia estar guardada em um saco ao lado de um poste qualquer. O cheiro era irresistível e parei pra senti-lo de perto. Quando olhei novamente, meu amigo estava um pouco longe, do outro lado da avenida. Com a preocupação de não ser deixado pra trás ou de perdê-lo de vista, corri em sua direção sem me atentar a mais nada. Depois veio aquele barulho ensurdecedor, e lá estava eu, deitado em algum lugar sentindo uma dor indescritível. Eu mal podia me mover e sentia o odor do sangue que escorria de mim. Por um instante cheguei a pensar que aquele momento marcaria o meu fim. E onde estaria o meu amigo neste momento em que eu mais precisava dele? Senti-me abandonado e sem ninguém, mas sob um sol ofuscante vi uma silhueta que se aproximava mais e mais, até que, ao ouvir sua voz, reconheci ser meu amigo. Com sua voz reconfortante me levantou em seus braços e pude sentir as lágrimas que ele derramava sobre meu corpo. A dor ainda era intensa e mesmo com sua presença, eu ainda sentia medo. Entramos no carro de um desconhecido qualquer e eu desmaiei. Quando acordei estava em outro lugar, deitado sobre uma mesa gelada, e duas pessoas que eu nunca havia visto colocavam suas mãos em mim. Mas neste momento eu já não sentia mais nada. Após estes instantes de angústia, me vi esquecido numa pequena sala, preso entre barras de metal, sozinho com minha dor. E dessa forma adormeci.
No dia seguinte, acordei me sentindo bem melhor, ainda com as ataduras e ainda entre as barras de metal. Fui novamente invadido pela tristeza e pela sensação de que jamais veria meu amigo, ou nem sequer a minha casa. Nem me recordo por quanto tempo fiquei naquela situação, mas lembro-me bem do momento mais feliz de minha vida, quando meu amigo apareceu novamente e dessa vez, levando-me consigo de volta pra casa. E assim nosso laço de amizade se tornou eterno.
Mas o que me deixa extremamente curioso é o ritmo em que essas pessoas vivem. De um lado para o outro, como se estivessem sempre com pressa, sempre atrasados. Qual o sentido disso tudo? Será que eu sou o errado em ficar aqui, curtindo o que há de bom nessa vida ou errados estariam eles, por desperdiçarem tais momentos? Bem, não sou lá tão inteligente quanto dizem, mas sei bem que não trocaria essa minha vidinha por nada neste mundo.